SOBRE A INVEJA:
- Mayara Santana

- 11 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

A inveja e seus contornos na vida psíquica
A inveja faz parte da nossa vida psíquica. Ela nos atravessa, atravessa todos nós. Mas vale olhar de perto: a inveja não aparece apenas relacionada ao que o outro tem . Ela também pode surgir em relação ao que o outro é — ao modo como aquela pessoa se posiciona no mundo, ao jeito como ela goza da vida.
O que desperta a inveja, portanto, possui inúmeras possibilidades e sempre fala mais de quem inveja do que de quem é invejado.
Há um ponto especialmente interessante: a inveja só se torna trabalhável quando conseguimos reconhecê-la. E sabemos que não há tarefa mais difícil do que admitir a própria inveja — talvez um dos afetos mais negados da condição humana.
Quando a inveja aparece: perguntas possíveis
Diante desse afeto, algumas perguntas ajudam a abrir caminhos:
O que existe na minha inveja que eu gostaria tanto para mim?
Há alguma admiração velada ali, escondida?
O que me impede de conquistar aquilo que olho com desejo?
O que faço em mim quando sinto esse incômodo?
A inveja é rica porque pode funcionar como uma pista do desejo : muitas vezes, ela aponta para algo que gostaria de construir, mas ainda não sabemos como.
Uma inveja destrutiva
Mas existe também a chamada inveja destrutiva — aquela em que uma pessoa não tolera que o outro tenha algo e deseja que ele seja privado. Isso pode aparecer de diversas formas: desmerecimento, depreciação, crítica maldosa, minimizar a conquista de alguém.
É como se uma pessoa tivesse sido excluída de uma festa e, em vez de ir embora, quisesse desligar a música para que ninguém mais pudesse dançar.
Melanie Klein descreve com muita clareza essa diferença. Ela diz que:
“No ciúme, teme-se perder o que se possui; na inveja, sofre-se ao ver o outro possuir aquilo que se deseja.”
Inveja, comparação e a cultura do ideal
A inveja é também uma melodia da comparação. E, na nossa cultura — onde ser visto, ser admirado, triunfar e performar a própria vida se tornou um valor —, isso se intensifica.
Vivemos uma inflação do narcisismo e do imaginário: terrenos férteis para que a inveja floresça com força. É uma dinâmica feroz, que exaure e aprisiona.
O que fazer com a inveja?
O caminho possível não é eliminá-la — isso seria negar uma parte de nós. O movimento é tratado pela escuta , simbolizá-la, investigar o que está oculto no desejo que ela revele.
É elaborar a falta, reconhecer as diferenças, sustentar o que em nós não é tão nobre assim, mas ainda assim nos habita.
Dá trabalho — e muito. Mas é infinitamente mais interessante quando podemos nos responsabilizar pelos nossos afetos, inclusive pelos mais desconfortáveis.
No terreno da inveja, há sempre um ouro escondido. Basta coragem para encontrá-lo.



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